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11:22 Dom
17/12/2017
EX-SKATISTA

Brasileiro indicado ao Oscar estagiou com Mauricio de Sousa e foi skatista

Em cima da estante no estdio do animador Al Abreu, 44, dois trofus do Grande Prmio do Cinema Brasileiro esperam a hora de serem "promovidos" sala de estar.

Em cima da estante no estúdio do animador Alê Abreu, 44, dois troféus do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro esperam a hora de serem "promovidos" à sala de estar.

"É mandinga", explica a assistente Tainá Maneschy. "Eles só saem daí quando chegar o próximo". Na fila está o Oscar de melhor animação.

Agora, o menino que um dia jurou nunca vestir um terno cederá ao smoking ao representar o Brasil na cerimônia do Oscar, no dia 28/2. Nada mau para o diretor que relutou em abraçar o cinema.

"Custei a me assumir cineasta. Isso só veio há dois anos, quando eu já não fazia outra coisa havia cinco", admite. "Antes, em fichas de hotel, eu colocava sempre 'desenhista' como profissão."

O interesse pelo desenho veio cedo. Já no jardim de infância demonstrava predisposição à arte. O início, porém, foi em casa, ao lado da mãe, que perdeu aos cinco anos.

"Não tenho muitas lembranças dela, mas uma que sobreviveu é ela me ensinando a misturar cores primárias para formar as secundárias. É a memória mais antiga que tenho de desenhar, e formou um elo com a minha carreira."

Se o menino de seu filme sai da roça para procurar o pai na cidade, Alê cresceu numa metrópole interiorana. Em Perus, na zona norte de São Paulo, fazia excursões na montanha e pescava cobras.

Aos 11, começou a desenvolver seu traço em um estágio com Mauricio de Sousa. Não gostou de reproduzir personagens alheios. "O bom é que eu conversava com o Maurício. Ele dizia que eu desenhava bem o Horácio." O criador da "Turma da Mônica" diz não se lembrar de Alê.

Mais tarde, o desejo de autonomia o levou a recusar a chance de enviar trabalhos à Disney quando a empresa garimpava profissionais no país.

Já o contato com a animação começou aos 12, em oficina no Museu da Imagem e do Som. Sérgio Tastaldi, 70, seu primeiro professor, diz que desde cedo o aluno se destacava. "Criança é meio esporrenta, mas ele não era. Muito sério, o mais novo da turma, focado e original", relembra.

A paixão pelo desenho deu trégua na adolescência, época em que descobriu o skate. Habilidoso, chegou a disputar, patrocinado, campeonatos de pista vertical. "Mas mesmo ali eu ilustrava 'shapes' e camisetas", conta ele.

Pressionado pelo pai empresário a ganhar dinheiro, uma questão que diz ter resolvido ("Era natural, esse lado empresarial dele talvez tenha ajudado a gerenciar os projetos"), Alê foi cursar comunicação social no mesmo período em que aproveitou para produzir seu primeiro curta-metragem, "Sírius", de 1993, com a ajuda de colegas.

Já formado, ele ilustrou campanhas publicitárias e livros infantis para financiar os curtas "Espantalho" (1998) e "Passo" (2007), antes de fazer sua estreia nos longas com "O Garoto Cósmico", em 2008.

Dois anos antes, inspirado pelo passado revolucionário da América Latina, Alê idealizou um documentário sobre canções de protesto do continente. Batizou-o de "Canto Latino", homenagem à música de Milton Nascimento.

Estava imerso no projeto quando encontrou em seu arquivo o desenho de um menino de palito, que nem lembrava ter feito. "Na urgência do traço, achei a energia para um filme", lembra. "Canto Latino" foi abortado. Nascia "O Menino e o Mundo".

Da ideia original, manteve o subtexto político ao abordar alienação, pobreza e violência policial. Alê não teve medo de fazer um filme complexo demais para crianças. "Fazer da animação algo infantilizado é penoso para elas, que se veem obrigadas a consumir algo que as trata de cima para baixo", critica.

A escolha deu certo: "Menino" disputa com "Anoma-lisa", "Shaun, o Carneiro", "Quando Estou com Marnie" e "Divertida Mente" o Oscar de animação. A indicação fez com que o longa, exibido em 2014, quando contabilizou público de 35 mil pessoas, retornasse aos cinemas brasileiros. (UOL - Folha de São Paulo)

SERVIÇO: 

O MENINO E O MUNDO
DIREÇÃO Alê Abreu
PRODUÇÃO Brasil, 2013, livre
QUANDO em cartaz 

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